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Angústia materna: quando a paciência se esgota e a culpa se instala

28 de fev. de 2026
LM
Luciana Manzoli Parangaba
Angústia materna: quando a paciência se esgota e a culpa se instala

Nos consultórios de psicologia, uma das queixas mais frequentes — e, ao mesmo tempo, mais silenciadas — é a de mães que chegam carregando uma culpa imensa por terem perdido a paciência com os filhos. São mulheres que, em sua grande maioria, são dedicadas, presentes e amorosas, mas que, diante do acúmulo de demandas, da exaustão e de comportamentos difíceis dos filhos, sentiram que ultrapassaram um limite que jamais imaginaram ultrapassar. Algumas gritaram de forma descontrolada. Outras disseram palavras que gostariam de nunca ter dito. E muitas chegam ao consultório com a sensação de que reagiram de uma maneira que não reconhecem como sua — e carregam isso como um peso enorme.

Antes de qualquer reflexão, é preciso dizer algo fundamental: se você é mãe e está lendo este texto com o coração apertado porque se reconhece nessas situações, saiba que o fato de sentir culpa já revela algo importante sobre você. A culpa, nesse contexto, não é sinal de que você é uma mãe ruim — é sinal de que você se importa profundamente, de que seus valores foram confrontados por um momento de descontrole e de que há em você um desejo genuíno de fazer diferente. Essa consciência é o ponto de partida para a transformação.

A maternidade, como já abordamos em textos anteriores, é atravessada por uma idealização social que exige da mulher uma paciência infinita, uma disponibilidade constante e um amor que nunca falha. Essa expectativa, além de irreal, é profundamente adoecedora. Nenhum ser humano — mãe ou não — possui recursos emocionais inesgotáveis. E quando a mãe se encontra sozinha, sobrecarregada, privada de sono, sem rede de apoio e diante de uma criança que grita, se joga no chão, desafia ou se recusa a cooperar, o que acontece dentro dela é uma tempestade emocional que pode ultrapassar qualquer limite racional.

É essencial compreender, sob o olhar da psicanálise, o que está acontecendo nessa dinâmica — tanto do lado da criança quanto do lado da mãe.

Do lado da criança, os comportamentos difíceis raramente são "maldade" ou "manipulação". A criança pequena ainda não possui maturidade neurológica e emocional para regular suas emoções de forma adequada. O córtex pré-frontal — a região do cérebro responsável pelo controle dos impulsos, pelo planejamento e pela regulação emocional — só amadurece plenamente por volta dos 25 anos. Isso significa que, quando uma criança de 3, 5 ou 8 anos tem uma birra intensa, ela não está escolhendo ser difícil — ela está sendo invadida por emoções que são grandes demais para o seu aparelho psíquico processar. A birra, o grito, a agressividade e a recusa são, na verdade, formas primitivas de comunicação. A criança está dizendo, da única forma que consegue: "Estou frustrada", "Estou cansada", "Preciso de ajuda", "Não sei lidar com o que estou sentindo".

Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, nos ensinou que a agressividade na infância não é patológica em si mesma — ela faz parte do desenvolvimento saudável. A criança precisa testar limites, experimentar sua potência, confrontar o outro para descobrir onde termina ela e onde começa o mundo. O problema não é a agressividade da criança, mas a ausência de um ambiente que consiga contê-la sem retaliação, que acolha o impulso sem se desorganizar diante dele. E é justamente aqui que a angústia materna se instala: como conter o filho quando eu mesma estou transbordando?

Do lado da mãe, o que acontece nos momentos de perda de controle é igualmente complexo. A mãe que reage de forma desproporcional, na imensa maioria dos casos, não é uma mãe que deseja fazer mal ao filho — é uma mãe esgotada que, naquele instante, perdeu o acesso aos seus recursos emocionais. É como se o sistema interno de regulação entrasse em colapso: a raiva, a frustração, o cansaço acumulado, a sensação de impotência e, muitas vezes, questões da sua própria história pessoal se misturam e transbordam em uma reação que, segundos depois, já é seguida de arrependimento devastador.

A psicanálise nos mostra que, nesses momentos, frequentemente o que está em jogo não é apenas a situação presente. A forma como a mãe reage ao comportamento do filho é profundamente influenciada pela sua própria história infantil. Mães que foram criadas em ambientes onde formas rígidas de disciplina eram normalizadas podem reproduzir esses padrões de forma automática, mesmo que conscientemente os rejeitem. Mães que viveram situações de desamparo na infância podem sentir uma angústia desproporcional quando o filho as desafia, porque aquele momento reativa a sensação de não ter controle, de não ser ouvida, de não ser respeitada — feridas antigas que ressurgem disfarçadas de fúria.

Melanie Klein, psicanalista que se dedicou profundamente ao estudo das relações mãe-bebê, nos ajuda a compreender que a ambivalência é inerente a qualquer relação de amor. Amar profundamente um filho e, em certos momentos, sentir raiva dele não são sentimentos contraditórios — são sentimentos humanos que coexistem. O problema não está em sentir raiva, mas quando essa raiva não encontra canais de elaboração e se transforma em ato. A terapia oferece justamente esse espaço: um lugar onde a mãe pode dizer "Eu senti raiva do meu filho" sem ser julgada, e a partir daí compreender o que alimenta essa raiva e encontrar outras formas de expressá-la.

Um aspecto particularmente doloroso para as mães que sentem que perderam o controle é o medo do impacto sobre o filho. "Será que machuquei emocionalmente meu filho?" "Ele vai lembrar disso para sempre?" "Eu prejudiquei a nossa relação?" Essas perguntas assombram e paralisam. É importante dizer, com honestidade clínica, que um episódio isolado de descontrole, quando seguido de reparação genuína, não destrói o vínculo. O que pode ser prejudicial é o padrão repetitivo, a ausência de reconhecimento do erro e a falta de reparação. A criança é extraordinariamente resiliente e capaz de processar experiências difíceis quando tem ao lado um adulto que reconhece o que aconteceu, pede desculpas de forma sincera e demonstra, com atitudes concretas, que está buscando mudar.

A reparação é um conceito central na psicanálise e no desenvolvimento infantil. Winnicott nos ensinou que as falhas do ambiente são inevitáveis — o que importa é a capacidade de reparar. Uma mãe que se volta para o filho e diz, com autenticidade: "A mamãe errou. Eu não deveria ter reagido assim. Você não merecia. Eu estou buscando ajuda para aprender a lidar melhor com o que sinto" — essa mãe está oferecendo ao filho algo extremamente valioso: o modelo de um adulto que reconhece seus erros, que é responsável por suas ações e que busca ser melhor. Isso ensina à criança que errar faz parte da condição humana, que as relações sobrevivem às falhas e que o amor é mais forte do que os momentos difíceis.

Mas a reparação com o filho, embora essencial, não é suficiente. A mãe também precisa cuidar de si mesma. E é aqui que a psicoterapia se torna um recurso indispensável. No espaço terapêutico, a mãe pode investigar as raízes da sua reatividade emocional: o que, na sua história, faz com que determinados comportamentos do filho a desestabilizem tanto? Que necessidades suas não estão sendo atendidas — sono, descanso, vida social, espaço para si? Que crenças sobre maternidade ela internalizou que a fazem sentir que precisa dar conta de tudo sozinha? Que modelo de educação ela recebeu e como isso influencia suas reações automáticas?

Além do trabalho terapêutico individual, existem estratégias práticas que podem ajudar a mãe nos momentos de escalada emocional. A primeira e mais fundamental é: quando sentir que está perdendo o controle, afaste-se fisicamente da situação, se possível. Vá para outro cômodo, respire, beba água, conte até dez — qualquer coisa que crie uma pausa entre o impulso e a ação. Essa pausa, por menor que seja, pode ser a diferença entre reagir e responder. A segunda estratégia é construir uma rede de apoio real: parceiro, familiares, amigos, vizinhos — pessoas a quem a mãe possa recorrer quando estiver no limite. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza maternal; é sinal de inteligência e responsabilidade.

É igualmente importante que o filho ou a filha que vivenciou um momento difícil tenha espaço para falar sobre o que sentiu. A criança que é ouvida em sua dor, que pode dizer ao terapeuta, ao pai ou à própria mãe que ficou assustada, com raiva ou triste, está exercendo um direito fundamental: o de ter sua experiência emocional validada. Quando a criança fala sobre o que viveu na sessão de terapia, por exemplo, isso não é uma traição à mãe — é um movimento saudável de elaboração. E a mãe que compreende isso, que permite e até encoraja que o filho fale sobre o que sentiu, está demonstrando uma maturidade emocional que fortalece profundamente o vínculo entre os dois.

Preciso finalizar este texto reforçando algo que considero essencial: a maternidade não deveria ser vivida como um exercício solitário de perfeição. A sociedade que romantiza a mãe que "dá conta de tudo" é a mesma que a abandona quando ela desmorona. Se você é mãe e sente que está no limite, se já reagiu de formas que gostaria de não ter reagido e carrega a culpa disso, se tem medo de que seus momentos de fragilidade definam quem você é como mãe — eu preciso te dizer: eles não definem. O que define é o que você faz a partir daqui. Buscar ajuda profissional, abrir-se para o autoconhecimento e construir novas formas de lidar com as dificuldades da maternidade são atos de coragem, de amor e de responsabilidade — consigo mesma e com seus filhos.

Você não precisa ser uma mãe perfeita. Você precisa ser uma mãe que se permite ser humana — e que, justamente por isso, busca ser melhor a cada dia. A terapia pode ser esse espaço de acolhimento, compreensão e transformação. Dê esse passo. Por você e pelos seus filhos.

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