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Dependência emocional: quando amar se torna sofrer

10 de jan. de 2026
LM
Luciana Manzoli Parangaba
Dependência emocional: quando amar se torna sofrer

Você já se perguntou por que algumas pessoas permanecem em relacionamentos que claramente lhes causam sofrimento? Por que, mesmo reconhecendo que a relação é prejudicial, sentem-se incapazes de se afastar? A dependência emocional é um padrão relacional que vai muito além do apego saudável — trata-se de uma necessidade intensa e desproporcional do outro para se sentir completo, seguro e valorizado.

A pessoa emocionalmente dependente costuma apresentar medo intenso do abandono, dificuldade em tomar decisões sozinha, necessidade constante de aprovação, ciúme excessivo, anulação dos próprios desejos em favor do parceiro e uma sensação de vazio quando está só. Frequentemente, esses indivíduos toleram situações de desrespeito, manipulação e até violência emocional, por acreditarem — de forma inconsciente — que não merecem algo melhor ou que não sobreviveriam sem aquela relação.

Sob a perspectiva psicanalítica, a dependência emocional tem raízes profundas na história do sujeito, geralmente remontando às primeiras experiências vinculares da infância. Winnicott nos ensinou que o bebê humano nasce em um estado de dependência absoluta, e a qualidade do cuidado recebido nessa fase estrutura a forma como ele se relacionará com o mundo ao longo da vida. Quando o ambiente materno (ou de cuidado) falha de maneira significativa — seja por negligência, superproteção, inconsistência ou indisponibilidade emocional — a criança pode desenvolver uma insegurança de base que a acompanha na vida adulta.

Freud também nos ajuda a compreender esse fenômeno ao falar sobre a compulsão à repetição: muitas vezes, sem perceber, o sujeito busca nos relacionamentos atuais a reparação de feridas antigas. Ele se apega a pessoas que, de alguma forma, reproduzem o padrão relacional vivido na infância — esperando, inconscientemente, que dessa vez o final seja diferente. Essa repetição, no entanto, tende a reforçar o ciclo de sofrimento, pois o sujeito escolhe partir de um lugar de carência, e não de desejo genuíno.

A dependência emocional também se conecta com a fragilidade narcísica. Quando uma pessoa não conseguiu construir uma imagem de si suficientemente forte e coesa, ela passa a depender do olhar do outro para se sentir existir. O parceiro se torna, então, não um companheiro de vida, mas um espelho essencial — sem o qual o sujeito se sente fragmentado.

O tratamento psicanalítico da dependência emocional é um processo de autoconhecimento profundo. Na terapia, o paciente é convidado a revisitar sua história, compreender os padrões que se repetem em seus relacionamentos, identificar as necessidades que tenta suprir através do outro e, gradualmente, fortalecer sua identidade e autonomia. Não se trata de aprender a "não precisar de ninguém", mas de construir a capacidade de se relacionar a partir de um lugar de inteireza, e não de falta.

Se você sente que seus relacionamentos seguem um padrão de sofrimento, que tem dificuldade em ficar só ou que se anula para manter a relação, a psicoterapia pode ser o caminho para romper esse ciclo. Amar não precisa significar sofrer — e entender por que isso acontece é o primeiro passo para uma vida afetiva mais saudável e livre.

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