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Roblox e os perigos da internet sem supervisão: como proteger seus filhos de predadores online

13 de fev. de 2026
LM
Luciana Manzoli Parangaba
Roblox e os perigos da internet sem supervisão: como proteger seus filhos de predadores online

Nos últimos meses, tenho recebido no consultório um número crescente de casos que acendem um alerta urgente para pais e responsáveis: crianças entre 8 e 12 anos que foram expostas a conteúdos sexuais e abordadas por predadores dentro de plataformas de jogos online — em especial o Roblox. Meninos e meninas que deveriam estar brincando e vivendo a infância com leveza estão chegando com relatos de experiências perturbadoras, confusão emocional, medo e, em alguns casos, marcas de abuso que exigirão um longo trabalho terapêutico para serem elaboradas. Escrevo este texto como profissional de saúde mental e como alguém profundamente comprometida com a proteção da infância.

O Roblox é uma das maiores plataformas de jogos do mundo, com milhões de usuários ativos, sendo uma parcela expressiva composta por crianças e pré-adolescentes. O que muitos pais não sabem — ou subestimam — é que, embora o Roblox ofereça filtros de chat e restrições para contas registradas como menores de 13 anos, essas barreiras são facilmente contornáveis: basta que a criança informe uma idade falsa no cadastro para ter acesso a um sistema de chat que permite a comunicação direta com qualquer usuário. Na prática, mesmo os filtros existentes não são infalíveis e não impedem que conversas migrem para plataformas externas como o Discord. Isso significa que, enquanto seu filho ou filha acredita estar conversando com outra criança da mesma idade, do outro lado da tela pode estar um adulto mal-intencionado — um predador sexual que se disfarça de criança ou adolescente para se aproximar, ganhar confiança e, progressivamente, conduzir a conversa para temas sexuais, solicitar fotos, vídeos ou até marcar encontros presenciais.

Essa dinâmica é extremamente perigosa porque opera por meio de manipulação psicológica — o que especialistas chamam de grooming. O predador online é paciente e estratégico: ele observa o comportamento da criança no jogo, identifica suas vulnerabilidades emocionais, oferece atenção e presentes virtuais, cria uma relação de confiança e, aos poucos, rompe as barreiras naturais de proteção da criança. A criança, por sua vez, não possui maturidade cognitiva e emocional para identificar esse tipo de manipulação. Ela se sente especial, acolhida e, muitas vezes, desenvolve um vínculo afetivo com o predador antes de perceber que algo está errado — se é que percebe.

O que tenho observado clinicamente é devastador. Crianças que antes eram extrovertidas e seguras passam a apresentar mudanças abruptas de comportamento: isolamento, irritabilidade, dificuldade de concentração, pesadelos, regressões comportamentais (como voltar a urinar na cama), medo de ficar sozinhas e, em alguns casos, comportamentos sexualizados incompatíveis com a idade. Meninas, em particular, têm sido alvo preferencial desses predadores, sendo induzidas a compartilhar imagens íntimas sob ameaça, chantagem emocional ou simplesmente porque foram convencidas de que aquilo era "normal" entre "amigos".

É fundamental que os pais compreendam uma verdade incômoda: a internet não é um ambiente seguro para crianças desacompanhadas. Assim como não deixamos uma criança de 8 anos sozinha em uma praça pública cercada de desconhecidos, não devemos deixá-la navegar livremente pela internet, onde os riscos são ainda mais insidiosos porque são invisíveis. A falsa sensação de segurança que o ambiente doméstico oferece — "meu filho está no quarto, jogando no tablet" — é um dos maiores fatores de vulnerabilidade. A criança pode estar fisicamente segura dentro de casa, mas emocionalmente exposta a situações de extrema gravidade no mundo digital.

Além dos predadores, há outro problema grave: a exposição a conteúdos sexuais explícitos. Dentro do próprio Roblox e em plataformas associadas (como Discord, YouTube e TikTok), existem jogos, vídeos e comunidades com conteúdos sexuais disfarçados de entretenimento infantil. Crianças acessam esses conteúdos por curiosidade, por indicação de outros jogadores ou por algoritmos que direcionam material cada vez mais adulto conforme o uso se intensifica. Essa exposição precoce à sexualidade adulta pode gerar confusão sobre limites corporais, normalização de comportamentos abusivos, ansiedade, culpa e uma distorção na forma como a criança compreende as relações humanas.

Diante desse cenário, a pergunta que mais recebo dos pais é: "O que eu posso fazer?" A resposta envolve ações práticas e, sobretudo, uma mudança de postura na relação com os filhos. A seguir, compartilho orientações fundamentais.

Estabeleça regras claras sobre o uso de telas e internet. Defina horários, tempo de uso e quais plataformas são permitidas. Crianças entre 8 e 12 anos não devem ter acesso irrestrito à internet. Use controles parentais disponíveis nos dispositivos e nas próprias plataformas — no Roblox, por exemplo, é possível restringir o chat e limitar interações com desconhecidos. No entanto, nenhum filtro tecnológico substitui a presença e o olhar atento do adulto.

Conheça o que seus filhos acessam. Muitos pais entregam um celular ou tablet à criança sem nunca verificar quais jogos ela joga, com quem conversa ou quais vídeos assiste. Reserve tempo para sentar ao lado do seu filho, pedir para ele mostrar o que está jogando, perguntar sobre os "amigos" do jogo e observar suas reações. Essa presença não precisa ser invasiva — ela pode ser genuinamente interessada e acolhedora.

Crie um ambiente de confiança e diálogo aberto. Este é, talvez, o ponto mais importante e mais desafiador. A criança só vai contar ao adulto o que está vivendo se sentir que não será julgada, punida ou ridicularizada. Muitas crianças vítimas de abordagens online não contam aos pais por medo de perder o acesso ao jogo, de levar bronca ou de causar preocupação. É essencial que os pais comuniquem, desde cedo e de forma reiterada: "Você pode me contar qualquer coisa. Eu estou aqui para te proteger, não para te punir." Essa mensagem precisa ser vivida na prática, não apenas dita. Se a criança traz uma informação difícil e a reação do adulto é de explosão emocional, ela aprende que não é seguro falar.

Converse sobre segurança digital de forma adequada à idade. Explique, com linguagem acessível, que nem todas as pessoas na internet são quem dizem ser. Use exemplos e analogias que a criança possa compreender: "Assim como a gente não aceita doce de um estranho na rua, a gente também não aceita presentes ou convites de pessoas que não conhecemos na internet." Ensine que informações pessoais — nome completo, escola, endereço, fotos — nunca devem ser compartilhadas com desconhecidos online.

Esteja atento aos sinais de alerta. Mudanças repentinas de comportamento, sigilo excessivo com o celular ou tablet, reações emocionais intensas ao ser questionado sobre o que faz online, linguagem ou conhecimento sexual inapropriado para a idade, presentes ou moedas virtuais de origem desconhecida — todos esses são sinais que merecem atenção e uma conversa cuidadosa.

Busque ajuda profissional quando necessário. Se você percebeu que seu filho foi exposto a conteúdo impróprio ou abordado por alguém online, procure um psicólogo especializado em atendimento infantil. O trabalho terapêutico com crianças que passaram por essas experiências é fundamental para que elas possam elaborar o que viveram, restabelecer a sensação de segurança e retomar o desenvolvimento emocional saudável. Além disso, registre a ocorrência nas autoridades competentes — a Delegacia de Crimes Cibernéticos, o Conselho Tutelar e a SaferNet Brasil (safernet.org.br) são canais importantes para denúncia e orientação.

Como psicóloga, preciso reforçar que a presença emocional dos pais é o maior fator de proteção que uma criança pode ter. Não se trata de controlar cada passo do filho, mas de construir uma relação onde ele saiba que os pais são porto seguro — pessoas a quem pode recorrer sem medo. Crianças que crescem em ambientes de escuta, validação e confiança desenvolvem maior capacidade de identificar situações de risco e de pedir ajuda quando precisam.

A infância é um período de formação psíquica fundamental. As experiências vividas nessa fase deixam marcas profundas na estrutura emocional do sujeito, influenciando como ele se relacionará consigo mesmo e com o mundo ao longo de toda a vida. Proteger a infância dos nossos filhos no ambiente digital não é superproteção — é responsabilidade. E o primeiro passo é parar de tratar a internet como uma babá inofensiva e começar a encará-la como o que ela é: um espaço que oferece possibilidades extraordinárias, mas que, sem supervisão adequada, pode expor as crianças a perigos reais e graves.

Se você é pai ou mãe e esse texto gerou um incômodo, use-o como combustível para agir. Converse com seus filhos hoje. Verifique os dispositivos que eles usam. Estabeleça regras claras. E, acima de tudo, diga a eles que você está disponível para ouvir — sem julgamento, sem punição, com amor e proteção. Esse é o primeiro e mais importante passo para garantir que a infância dos seus filhos seja preservada.

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