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Vício em apostas: quando o tigrinho vira armadilha e a psicanálise revela o que está por trás

27 de jun. de 2026
LM
Luciana Manzoli Parangaba
Vício em apostas: quando o tigrinho vira armadilha e a psicanálise revela o que está por trás

Às três da manhã, o brilho do celular ilumina o rosto de alguém que deveria estar dormindo. Os dedos deslizam sobre a tela com uma familiaridade que parece automática. O tigrinho roda mais uma vez. A adrenalina aperta o peito. O coração acelera. E a promessa — silenciosa, mas insistente — de que desta vez vai ser diferente faz com que mais um valor seja depositado. Horas depois, no caminho para o trabalho, ele abre o extrato bancário e sente o estômago apertar. O saldo desapareceu. É o quinto mês seguido que isso acontece. E ele ainda não contou para ninguém.

Se você se reconheceu nessa cena, ou conhece alguém que poderia estar nela, este texto é para você. O vício em apostas não é assunto de pessoas sem força de vontade ou moralmente deficientes. É, antes de tudo, uma forma de sofrimento psíquico que atinge pessoas de todas as idades, classes sociais e perfis. E a psicanálise tem muito a oferecer para compreender — e tratar — esse sofrimento.

O Brasil vive uma explosão sem precedentes no mercado de apostas. Desde a regulamentação das bets em 2023, plataformas como Bet365, Blaze e Betano inundaram o cotidiano brasileiro — em anúncios na TV, patrocínios de times de futebol e influenciadores nas redes sociais. O jogo do tigrinho virou fenômeno cultural, com vídeos de ganhos milionários alimentando uma fantasia coletiva de enriquecimento rápido e fácil. O problema não está na aposta em si — está em quando ela deixa de ser entretenimento e se torna compulsão.

O que torna esse vício diferente de qualquer outro é o celular. Por décadas, jogar exigia deslocamento físico — ir a um cassino, a um bingo. Essa pequena barreira criava uma pausa natural entre o impulso e a ação. Hoje ela não existe mais. O aplicativo está no bolso, na mesa de cabeceira, no banheiro, no quarto às três da manhã quando o sono não vem. O jogo está disponível a qualquer momento, em qualquer lugar, com uma discreção que nenhum cassino físico jamais ofereceu. E esses aplicativos são projetados com sofisticação psicológica para prender: sons de moedas, quase-ganhos calculados para criar a ilusão de que a vitória está próxima, notificações de bônus que chegam no momento exato em que a pessoa está mais vulnerável. Bloquear o app resolve por algumas horas — criar uma nova conta leva dois minutos.

O que diferencia quem aposta por diversão de quem desenvolveu um vício não é o valor apostado, mas a relação com o jogo. O apostador compulsivo joga para recuperar o que perdeu — um ciclo sem fim em que cada nova aposta para cobrir a anterior apenas aprofunda o buraco. Mente para familiares sobre o quanto apostou. Negligencia trabalho, filhos, contas, saúde. Sente ansiedade e irritabilidade quando tenta parar. E continua apostando mesmo sabendo, racionalmente, que vai perder. É nesse ponto que a racionalidade cessa e a compulsão fala mais alto.

É aqui que a psicanálise faz uma pergunta que a maioria das abordagens ignora: por que alguém continua apostando mesmo sabendo que vai perder? A explicação pela neurociência e pelo condicionamento é válida, mas incompleta. A psicanálise vai além e pergunta: o que está sendo apostado de verdade? O que essa pessoa está realmente buscando quando coloca tudo em jogo?

Freud já se debruçou sobre essa questão em 1928, ao analisar o escritor russo Dostoiévski — ele próprio um apostador compulsivo que chegou a perder tudo diversas vezes. A conclusão foi surpreendente: Dostoiévski não jogava para ganhar. Jogava para perder. A compulsão era, no fundo, uma forma de autopunição inconsciente — um castigo que o sujeito se impunha para expiar culpas e conflitos que não conseguia reconhecer conscientemente. A perda não era um acidente trágico; era o objetivo. Essa ideia pode soar estranha, mas ela explica algo que qualquer apostador compulsivo conhece bem: mesmo quando ganha, a paz não dura. Logo surge a necessidade de apostar de novo — e perder de novo.

Isso tem um nome na psicanálise: compulsão à repetição. O sujeito repete, ativamente, aquilo que lhe causa sofrimento. Não por masoquismo consciente, mas porque o psiquismo encontrou naquele ciclo de tensão e descarga uma forma de aliviar uma angústia maior que vive dentro dele. O vício não é uma escolha ruim que se repete por falta de força de vontade — é um circuito que se instalou fundo, e que a força de vontade sozinha não consegue desfazer. O tigrinho não é apenas um jogo. É uma arena onde se trava uma batalha interna que tem muito pouco a ver com dinheiro.

Por isso o apostador constrói uma fantasia que funciona como escudo: desta vez vai ser diferente. Eu sei como o algoritmo funciona. Estou no momento certo. Essa ilusão de controle é a negação da realidade que o psiquismo constrói para se proteger. E muitas vezes ela está ancorada em uma ferida mais profunda: a pessoa que sente que fracassou — no trabalho, no amor, na vida — encontra no jogo uma arena imaginária onde ainda pode vencer o destino. A aposta não é sobre dinheiro. É sobre sentir, por alguns instantes, que tem o controle de algo.

Parar sozinho é extraordinariamente difícil — e não por falta de caráter. O aplicativo está sempre ali, a um toque de distância, sem julgamento. Em momentos de solidão, estresse ou ansiedade, exatamente quando o impulso é mais forte, o celular está na mesa de cabeceira. Somam-se a isso os mecanismos de defesa: 'Eu consigo parar quando quiser', 'Só mais essa rodada', 'Vou recuperar o que perdi e então paro'. E a vergonha, que poderia motivar a busca por ajuda, faz o oposto: quanto mais a pessoa sente vergonha, mais evita falar, mais se isola — e mais o jogo vira a única saída para a angústia que ela mesma alimenta.

Para quem convive com um apostador compulsivo: o comportamento que você está vendo não é falta de caráter. É sofrimento. Gritar, ameaçar e emprestar dinheiro para cobrir dívidas não toca a raiz do problema — pagar as dívidas de alguém que ainda não está em tratamento costuma prolongar o ciclo sem resolver nada. O afeto genuíno é insubstituível, mas a família também precisa de apoio. Grupos como os Jogadores Anônimos têm encontros específicos para familiares, e a psicoterapia individual pode ajudar a entender como se posicionar com amor sem se perder junto.

A psicanálise oferece algo que nenhum aplicativo de autocontrole pode oferecer: um espaço para entender o que o jogo está tentando resolver. Não se trata de proibir ou de impor força de vontade — essas estratégias falham porque atacam o sintoma sem tocar o sofrimento que está por trás. O trabalho terapêutico investiga o que o jogo dá que a vida real não dá. Qual o vazio que a adrenalina preenche. Qual a ferida que se encena a cada rodada. Em casos mais graves, a psicanálise pode e deve ser combinada com acompanhamento psiquiátrico e grupos de apoio. O caminho não é rápido — mas é profundo. E quando o sujeito começa a compreender o próprio sofrimento, o automatismo da compulsão começa a ceder.

Se você se reconheceu em algum ponto desta leitura — seja porque é você quem está apostando e sentindo que perdeu o controle, seja porque alguém que você ama está nessa situação —, saiba que o que está vivendo tem nome, explicação e tratamento. O vício em apostas não é fraqueza, não é falta de caráter, não é escolha consciente. É sofrimento. E sofrimento pode ser escutado, compreendido e transformado.

O primeiro passo não precisa ser parar de jogar — às vezes isso é impossível sem ajuda. O primeiro passo é falar. Com alguém de confiança. Com um profissional. Deixar que o sofrimento encontre palavras em vez de apostas. Porque aquilo que pode ser dito começa a perder o poder que tem quando fica em silêncio. Se você precisa desse espaço, estamos aqui.

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